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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"POLICIAIS DA PM DE MG, ACHAM QUE PODEM ACHAR, MAS ERRAM"


PM acha que espuma de ursinho era droga e prende idosa por 54 dias
29 de dezembro de 2011  15h26



Neuza Dias de Freitas, 72 anos, foi presa após PMs confundirem bolinhas de espuma do estofamento de ursinhos de pelúcia com anfetamina. Foto: Ney Rubens/Especial para Terra
Neuza Dias de Freitas, 72 anos, foi presa após PMs confundirem bolinhas de 
espuma do estofamento de ursinhos de pelúcia com anfetamina
Foto: Ney Rubens/Especial para Terra



"Eu fiquei 54 dias dormindo num colchonete imundo, em frente a um banheiro - que nem é banheiro, é uma privada imunda. Tomava água de torneira. Interrompi meu tratamento de anemia, passava muita fome, porque a comida é triste de ruim. Tomava banho de cano, uma água muito fria."
O depoimento emocionado é da aposentada e comerciante Neuza Dias de Freitas, 72 anos, moradora do bairro Santa Mônica em Belo Horizonte (MG) que foi obrigada a passar quase dois meses presa depois de ter sido acusada por policiais militares de tráfico de drogas.
Um ano depois do trauma, a aposentada recebeu a reportagem do Terra em sua casa, uma moradia simples. Ainda revoltada com a situação humilhante a que foi submetida, ela contou como foi sua prisão, no dia 3 de setembro do ano passado. Dona Neuza voltava do Paraguai em um ônibus regular que fazia a linha Foz do Iguaçu- Belo Horizonte. Trazia na bagagem, entre alguns brinquedos, 15 ursinhos de pelúcia para serem revendidos na lojinha da família em BH. Durante uma blitz da Polícia Militar (PM) em uma avenida de Araxá, no Triângulo Mineiro, dois PMs confundiram as bolinhas de espuma usadas para o enchimento dos ursinhos com anfetaminas, substância utilizada para a produção de outras drogas, como ecstasy. Um laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Civil confirmou o erro dos militares e a Justiça determinou a soltura da aposentada.
"Eu vinha de Foz do Iguaçu, no Paraná. Um rapaz que me ajudou a trazer os bichinhos porque não coube todos na minha sacola, porque a Gontijo (empresa de ônibus) só carrega 30 kg, e se exceder esse peso ela não traz nem pagando. Aí como ele estava trazendo quatro jaquetas e um capacete - ele é de Brumadinho (MG) -, ele me perguntou se eu queria que ele pesasse a minha mercadoria junto. Pesou, eu agradeci e falei com o motorista que ele podia jogar no bagageiro. Assim que chegou em Araxá o primeiro que ele abordou foi o rapaz que estava na frente. Como se tratava de um rapaz de boa aparência, tatuagem e boné, eles crescem o olho, né? Já acham que é traficante. Pediram para ver a bagagem, ele desceu, abriu a bagagem dele. Quando eu vi saindo aquele tanto de bolinha, eu falei que aquilo ali era meu. O policial então falou 'Ah, é da senhora? Então vai todo mundo para a delegacia'. Isso eram 11h, e ficamos lá até de madrugada, e eu achando que iria ser liberada, não tinha noção que estava presa. Quando foi lá pela meia-noite eu quis dar uma saidinha, o cara (um policial) me falou: 'Não, a senhora está presa'. Aí eu me assustei: 'uai, mas por quê?'" recordou.
Aquela seria a primeira das 54 noites que dona Neuza passaria detida por tráfico internacional de drogas. "Eles chamaram uma agente, devido à minha idade, e ela estava numa festa. Ela chegou meia furiosa, toda maquiada, me algemou com muita força. Eu disse para ela que ela estava me machucando. Ela me disse que a partir de agora eu era considerada uma bandida. Eu respondi para ela que iria provar que não era uma bandida. Me guardaram lá e eu fiquei arrasada", contou.
No dia seguinte à prisão, por entre as grades da cela, a aposentada viu sua história ser contada nos telejornais. "Eu fui para o pátio às 7h, porque tinha visita na minha cela e, quando tem visita na cela da gente, a gente tem que se retirar porque não tem lugar. Quando foi por volta de meio-dia e meia a (TV) Globo tem o jornal MGTV e que passou uma reportagem falando de mim. Eu fiquei tão transtornada que eu não quis ver. Começou todo mundo a zombar de mim, me chamando de 'Vovó do Tráfico'. Eu entrei em desespero. Eles tiveram uma pressa de chamar a imprensa, chegaram lá e me fizeram dar entrevista. Eu falei: 'Olha, eu quero preservar minha imagem, eu não quero aparecer'. Mesmo assim, todo mundo que viu me reconheceu. Eu estava com uma blusa igual a essa, porém de estampa vermelha. Todo mundo que me viu me reconheceu", disse.
A revolta de dona Neuza é maior porque, segundo ela, todo o flagrante por tráfico de drogas na noite anterior foi feito na delegacia de Araxá à revelia. "Quando foi por volta de 17h30 chegaram dois caras lá de óculos e gravata, empetecados, procurando por mim. Eu falei: 'Sou eu, o que vocês desejam?' Um deles falou: 'Nós somo advogados'. Eu falei que não chamei advogado e perguntei o que eles iriam fazer: ' Vão me tirar daqui?'. Ele me falou que eu teria que pagar R$ 6 mil. Eu falei: 'Olha, primeiro eu não tenho esse dinheiro. Segundo, eu não te conheço e, terceiro, eu não te chamei'. Ficamos, ficamos, ficamos, quando foi por volta de 2h30 - eu não lembro bem o horário, porque eu já estava transtornada, isso eu sem comer, sem beber -, eles chegam lá com um carro do sistema prisional e me jogam dentro, me põem dentro e me levam", contou.
O erro dos policiais teria sido percebido ainda na delegacia, mas como o boletim de ocorrência já havia sido registrado, o caso já estava em poder da Polícia Civil e deveria ser encaminhado à Justiça, como determina a lei.
"Levaram o material em laboratório da cidade, para mim eu não considero um laboratório competente porque o laudo deles - isso está no meu B.O. (boletim de ocorrência - deu que era positivo o material, ou seja, para eles era anfetamina. Anfetamina, aquilo ali que você está vendo (aponta para as bolinhas de espuma de um dos ursinhos). Só que dois policiais civis na delegacia viram e disseram: 'Neuza, aproveita que a PM saiu, vá lá e veja se você acha umas bolinhas e traga e aqui para mim'. Eu fui lá e consegui três. Eles mastigaram, puseram na língua, cheiraram. Eu perguntei: 'porque você mastigou e colocou na língua?'. Ele me falou: 'Porque se fosse droga a língua ficaria dormente, isso não é droga. Eu não posso fazer nada, eu gostaria de poder ajudar a senhora, mas a gente não pode fazer nada, não'", relatou a idosa.
"E teve um outro rapaz que falou que não era droga porque ele veio do laboratório e viu alguém falar que não era droga. Me prenderam lá e não fizeram mais nada. O juiz de lá negou meu alvará", afirmou a aposentada, informando em seguida que ela já entrou com um processo de indenização contra o Estado. "Eu espero justiça o mais rápido possível, porque eu fui muito detonada, muito castigada. Esse dinheiro que eu vou receber - que é um direito que eu tenho -, eu não gostaria nunca de ter que receber esse dinheiro, eu preferia não ter ficado lá. É muita humilhação, passei fome, interrompi meu tratamento (de saúde)", lamentou.
Respeito


Dos 54 dias que ficou na cadeia de Araxá, dona Neuza disse ter guardado de bom apenas o tratamento respeitoso de algumas carcereiras. "As meninas que trabalham lá são bacanas demais, de um coração enorme", disse.
Laudo


A análise químico-toxicológica que descartou serem anfetaminas as bolinhas de espuma dos ursinhos trazidos por dona Neuza foi feita no Instituto de Criminalística da Polícia Civil em Belo Horizonte.
O documento assinado pelos peritos Glause Carvalho e Washington Xavier de Paula atestou que, "realizada a marcha analítica, não foi constatada a presença de tóxicos minerais e/ou inorgânicos fixos (alcaloides e pesticidas) no material" enviado a exames, que totalizou 181,74 g de pequenas esferas, de aproximadamente 1 mm de diâmetro cada.
Segundo o laudo, foi encontrada apenas a substância Femproporex, um medicamento emagrecedor, em uma pílula encontrada com a aposentada, substância que pode ser comprada mediante receita médica.
Na Justiça contra o Estado

A aposentada Neuza Dias de Freitas entrou na Justiça contra o Estado. A ação foi distribuída no dia 8 de junho deste ano para a 4ª Vara da Fazenda Pública Estadual, no Fórum Lafayette, em Belo Horizonte.
Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), o valor da causa por dano moral é R$ 4.689,94. O homem que ofereceu ajuda à dona Neuza para carregar os ursinhos e que também foi preso por engano é parte na mesma ação de indenização. Rodrigo Alexandre de Rezende cobra do Estado indenização por dano material de R$ 9.740,00. Ainda não há previsão para que seja proferida uma decisão de 1ª instância.
A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds-MG) informou que irá cumprir a determinação da Justiça quando houver uma decisão e o Estado for notificado. A Polícia Militar de Minas Gerais foi procurada, mas não se pronunciou sobre o caso. 
FONTE: Terra.


Até onde vai parar o despreparo de 
policiais ligados a Polícia Militar?

Não dá para acreditar numa histórias dessas, se contado por terceiros. Mas, pergunto até onde e quando encostraremos ou teremos policiais tão despreparados e incapacitados para desenvolver o trabalho de segurança de nosso país? Não é possível que um policial que se diz da lei cometer tal engano, ainda mais em se tratando de algo dessa natureza. Onde ja se viu cometer tamanho abuso de poder com algo que não tem nem como se desculpar.
O que mais me deixa estarrecido, é o referido valor de indenização por dano moral dessa senhora, que ficou esse tempo na cadeia sendo impedido seus direitos de ir e vir, e ainda ter interrompido seus tratamentos de saúde, por conta do erro da justiça, e ter para receber míseros R$ 4.689,94. Onde está esse advogado dessa senhora?


Escrito por; 





***FRANCIS DE MELLO***

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