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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


Para suportar pedofilia, menina divide personalidade em duas.

Embora seja narrado pelo ponto de vista de uma criança, com toda a inocência e beleza da infância, "Tigre, Tigre" (Rocco, 2011), livro de memórias da escritora americana Margaux Fragoso, não é uma leitura leve. Aos poucos a autora revela, com detalhes sórdidos, todos os artifícios que um inescrupuloso e doentio predador sexual, já passado dos 50, usou para seduzi-la aos sete anos e mantê-la neste "feitiço" até tornar-se adulta.
Divulgação
Livro autobiográfico revela como age um pedófilo predador sexual
Livro autobiográfico revela como age um pedófilo predador sexual
Uma das estratégias que a garota criou para lidar com a confusão criada em sua cabeça pelo molestador foi cindir a própria personalidade em duas. Uma era Margaux, inocente e em crescimento, que ia para escola e tentava ter uma vida normal, como as demais pessoas. A outra era Nina, uma mulher lasciva que encarnava todas as perversões sexuais que o pedófilo a incitava a imaginar e realizar.
Além de roubar sua infância e adolescência, o abuso sexual causou danos graves à protagonista. Primeiro, uma degradação ainda maior de seu núcleo familiar já em frangalhos. Depois, a fez sofrer de distúrbios de ansiedade, insônia, autoestima e um déficit de atenção altíssimo, que resultou no afastamento de seus colegas de escola e em xingamentos que insinuavam que ela fosse deficiente mental.
Predador sexual seduz menina de 7 anos com brincadeiras
A mãe da menina, também traumatizada por um abuso sofrido na infância, tratado da pior maneira possível por seus pais, vivia entupida de remédios e, quase catatônica, tornou-se a acompanhante inocente de Margaux nas visitas que fazia ao predador. O pai da autora, um porto-riquenho orgulhoso, estourado e alcoólatra, não sabia como educar a filha e preferiu calar-se a admitir que deixou o crime acontecer debaixo de seu nariz.
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A perspectiva do livro fica cada vez mais assustadora conforme o leitor percebe que --após ser manipulada durante toda a infância e viver em um universo criado pelo pedófilo--a garota está apaixonada por ele. Comum em casos de abusos de longa duração, ela passa a ser a maior defensora do criminoso.
Enquanto isto, toda a vizinhança sabe ou desconfia do que acontece entre o velho, que já abusou de outras crianças, e a garota, mas ou se omitem ou têm seus esforços de interferir frustrados pelas negativas da própria vítima. As páginas ficam tensas e o maior incentivo para terminar a angustiante leitura é a cruel certeza de que o pedófilo morrerá nas últimas páginas do volume, conforme a própria escritora avisa na introdução da obra.
Afora os méritos literários --Margaux é especialista em técnicas de redação e em língua inglesa--, o livro termina por ser um grande alerta de que a sociedade está pouco preparada para perceber e agir em crimes deste tipo. Os criminosos se protegem embaixo do véu do silêncio e da desatenção. A ausência de educação sexual das crianças e o descuido dos pais facilitam sua atuação, principalmente em lares desestruturados.


Predador sexual seduz menina de 7 anos com brincadeiras.



De forma sensível e delicada, a escritora Margaux Fragoso revela um fantasma de seu passado ao contar como foi abusada sexualmente durante dez anos pelo mesmo homem no livro "Tigre, Tigre" (Rocco, 2011). O volume mostra que a ausência de educação sexual das crianças e de atenção dos pais facilitam o crime.
Sara Essex Bradley/Divulgação
Sem apoio dos pais, a escritora Margaux Fragoso sofreu abuso sexual durante infância e adolescência
Sem apoio dos pais, a escritora Margaux Fragoso sofreu abuso sexual durante infância e adolescência
Com um pai alcoólatra e uma mãe que sofre de problemas psiquiátricos, a autora foi seduzida desde os 7 por Peter Curran, nome fictício, de 51 anos, que se aproximou da família após conhecê-los em uma piscina pública.
Brincar de animais
Divulgação
Livro autobiográfico revela como age um pedófilo predador sexual
Livro autobiográfico revela como age um pedófilo predador sexual
Com promessas de um mundo sem regras e as fantasias e o imaginário pertencentes ao universo infantil, Curran ganhou a afeição de Margaux. Para que ela ficasse nua, propunha que brincassem de animais. No jogo, a menina era sempre o tigre que dá nome ao volume.
Ao longo do tempo e com a chegada da puberdade, a jovem começou a perceber que havia algo de errado nos "carinhos especiais" que trocava com o homem. O predador começou a fazer chantagens emocionais para que ela não o abandonasse, com cartas desesperadas e ameaças de suicídio.
Ao se tornar dona de seu destino, aos 18 anos, a escritora deu um basta na conturbada relação. O homem cumpriu sua promessa, matou-se aos 66 anos, como Margaux revela nas primeiras páginas do relato.
Livro de estreia da autora, a obra foi elogiada pela critica do "New York Times" por sua franqueza. 



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***FRANCIS DE MELLO***

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