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sábado, 11 de fevereiro de 2012

"GREVE, GUERRA, PARALISAÇÃO, BADERNA, OU MOTIM?"


Rio-Bahia: greves de PMs e Carnaval.


Em grampo, dirigentes do movimento da PM falaram da intenção de acabar com o Carnaval deste ano em Salvador e no Rio de Janeiro.
Em grampo, dirigentes do movimento da PM falaram da intenção de "acabar com o Carnaval deste ano em Salvador e no Rio de Janeiro".



















Da janela do décimo andar, do edifício onde moro na "cidade da Bahia" (assim o escritor Jorge Amado chamava Salvador) observo há 11 dias um espetáculo inesperado, neste explosivo verão soteropolitano, do qual gregos, cariocas e, principalmente, baianos seguramente não esquecerão tão cedo.
Engana-se quem imagina que vou escrever sobre algum novo sucesso musical, ou mesmo a respeito de nova coreografia ensaiada nos blocos de corda puxados, a cotação de ouro, pelas grandes celebridades do Axé da Bahia - Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Durval Lélys, Carlinhos Brown, Margareth Menezes, entre outros.
Falo de um inesperado show diário dos últimos dias, nos céus de Salvador, assunto ao qual retornarei no final deste artigo sobre as greves de PMs e bombeiros e o Carnaval na Bahia e no Rio de Janeiro.
Antes, é preciso dizer que os citados artistas da terra, aliás, andaram estranhamente silenciosos e omissos nestes dias de cão para seus conterrâneos, salvo uma ou outra postagem mais ou menos complacente no twitter "em favor da paz", como em todo Carnaval. Protestos mais diretos e explícitos só vieram de fato a partir da última terça-feira. Então, gravações com os grampos telefônicos efetuados pelo sistema eletrônico Guardião, do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Governo da Bahia, foram levadas ao ar na voz grave de William Bonner, no Jornal Nacional.
Nos telefonemas grampeados pelo Guardião (montado no primeiro mandato do governador Jaques Wagner sob a justificativa de "monitorar com aprovação da justiça e impedir evasões fiscais"), líderes da greve (ou motim?) falavam de ações violentas em rodovias e nas ruas da capital e cidades do interior. Conversas que iriam deixar a presidente Dilma (entrevistada vestida em uniforme de campanha das Forças Armadas) "estarrecida".
Isso durante uma visita presidencial realizada em companhia do notório ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, prefeitos, vereadores, anônimos papagaios de pirata e políticos do Nordeste com presença nacional. Tudo a propósito de inspecionar e anunciar mais dinheiro para as obras de transposição das águas do São Francisco (o rio da minha aldeia) em ano de eleições municipais. Amaldiçoado quem pensar mal destas coisas.
Em um dos grampos apresentados no noticiário de maior audiência do País, dirigentes do movimento da PM falavam da intenção de "acabar com o Carnaval deste ano em Salvador e no Rio de Janeiro". Cometeram aí talvez o mais grave erro de estratégia de um movimento onde os equívocos se sucediam quase todos, até então, na área de atuação do governo Jaques Wagner, ele próprio confessadamente apanhado "de surpresa" quando acompanhava a presidente Dilma em viagem ao Caribe (Cuba e Haiti).
Isso se evidenciaria, horas mais tarde, na operação do Exercito e Polícia Federal para desocupar o prédio da Assembléia Legislativa. O fotogênico cartão postal no Centro Administrativo da Bahia fora ocupado desde o começo da greve e transformado em quartel general grevista. Tambor de ressonância política nacional e internacional do comando do movimento de rebelião na PM, que alcançou até as páginas seletíssimas do New York Times e as telas e microfones da Al Jazeera.
A divulgação dos grampos no JN foi celebrada em Brasília e Ondina. E seguida da desocupação da Assembléia e prisão de dois dos principais líderes grevistas, Marco Prisco, em Salvador, e o bombeiro Benevenuto Daciolo, este ao desembarcar no Rio de Janeiro quando retornava da greve e tumultos da capital baiana, para cuidar mais de perto da greve de sua própria corporação.
A paralisação dos policiais militares, bombeiros e Policia Civil no Rio foi afinal decretada na noite de quinta-feira, embora sem a presença do líder bombeiro, agora recolhido a uma prisão de segurança máxima, em Bangu. O baiano Marco Prisco, depois de rápida passagem pelo Quartel General do Exercito, em Salvador, foi transferido para uma cadeia pública de Salvador.
Ambos agora transformados em "presos políticos", para seus aliados, ou valiosa "moeda de troca" para os que o mandaram para a prisão. O futuro das greves (ou motins?) é difícil de prever por enquanto. É certo, no entanto, que o carnaval pode muito (política, cultural, jornalística e economicamente). Tanto na Bahia, do petista Jaques Wagner, quanto no Rio de Janeiro, do peemedebista Sérgio Cabral. Os dois, aliados e protegidos da presidente Dilma.
Comecei estas linhas escrevendo sobre o fascinantemente arriscado bailado dos helicópteros militares nos céus de Salvador, a serviço da Força Nacional de Segurança. É este o espetáculo que assisto há mais de uma semana, várias vezes ao dia, da janela do apartamento onde moro, a poucos metros do heliporto do Colégio Militar do Exército.
No primeiro dia de voos rasantes e espetaculares, um garoto, que presumo não ter mais de 8 anos, na janela um andar abaixo do meu, grita, aparentemente tomado mais pelo fascínio da fantasia infantil que pelo temor espalhado na população: "Corra, pai. Venha ver os aviões! É guerra, é o Exercito, é o Exercito. Massa, pai!".
Mas, com a repetição diária tudo vai virando rotina. Até o barulho dos aparelhos no ar, a exemplo do que passa mais uma vez na frente da minha janela, quando escrevo estas linhas. Nem o garoto se impressiona mais. Ontem, falava-se que outra Força Nacional, com 14 mil homens, tanques e helicópteros estava à disposição de Cabral para ser mandada, também por Brasília, para atuar no Rio. Imagino, de Salvador, que o espetáculo e o barulho na Cidade Maravilhosa, às vésperas do Carnaval, deverão ser ainda maior e os resultados igualmente imprevisíveis.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta 




***FRANCIS DE MELLO***


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