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quarta-feira, 14 de março de 2012

"A IGREJA ANGLICANA PASSA POR TENSÕES SOBRE NOMEAÇÃO DE MULHERES COMO BISPAS"

As mulheres sacerdotes procuram seu lugar na Igreja anglicana.

































No momento em que a Igreja anglicana é atravessada por tensões sobre a nomeação de mulheres bispas, três mulheres testemunham suas experiências como sacerdotes.
A reportagem é de Tristan de Bourbon e está publicada no sítio do jornal francês La Croix, 07-03-2012. A tradução é do Cepat.
“Como ser confiável na hora de discutir com as pessoas de um país em que as mulheres são oprimidas se fazemos o mesmo entre nós? Quem quer discutir com uma Igreja que discrimina?” Rosie Harper sabe do que está falando. Aos 56 anos, sacerdote desde 2000, ela conhece as dificuldades de ser uma mulher na Igreja anglicana e de ser reconhecida por seus pares, no momento em que a questão da nomeação de mulheres para o cargo de bispo sacode suas fileiras.
“A questão não diz respeito a apenas um pequeno número de membros do clero”, afirma Harper. “Com a maioria delas, a mudança foi aceita, mas os outros se opõem e me dizem: ‘Isso não é nada pessoal, mas você não pode ser sacerdote’. Um deles me disse certa vez: "Eu concordo com o fato de que seja sacerdote, mas Deus não’”.
Esta oposição se concretiza às vezes de maneira muito extrema. “Alguns hospitais, por exemplo, dispõem de dois lugares diferentes para conservar os óleos para o sacramento da unção dos enfermos, porque alguns sacerdotes homens se recusam a tocar aqueles que foram usados por uma sacerdote mulher. Mas, de maneira bem mais visível, o bispo de Londres nunca ordenou mulheres sacerdotes, porque isso significaria romper com muitos dos futuros sacerdotes que se recusam a ser ordenados por um bispo que antes ordenou uma mulher”.

Regiões mais tradicionais que outras
Sally Hitchiner, 32 anos, foi ordenada sacerdote por um bispo auxiliar de Londres, em uma igreja simples, após ter sido ordenada diaconisa um ano antes na catedral de São Paulo, de Londres. “Eu fiquei um pouco chateada com a diferença entre essas duas ordenações”, precisa ela. “A primeira foi magnífica e muito festiva com 2.000 pessoas na catedral para a ordenação de 35 futuros diáconos, a segunda mais reservada, sagrada e religiosa. Mas nos fizeram compreender claramente, e nós guardamos isso na memória, que o nosso bispo não nos ordenou”.
Ela tinha apenas 14 anos quando, em 1994, foram ordenadas as primeiras mulheres. Assim, ela admite que a mudança é muito recente e compreende as relutâncias de uma parte do clero. “Ao contrário, os homens ordenados sacerdotes após 1994 sabiam muito bem em que Igreja estavam entrando...”.
Algumas regiões do Reino Unido lhe parecem mais restritivas em relação às mulheres que outras. “Londres é sem dúvida a mais tradicional”, assinala Sally Hitchiner. “Em Edmonton, apenas duas mulheres oficiam, numa diocese que têm cerca de 100 paróquias. E nas reuniões, os padres homens às vezes se recusam a falar. Eu tenho a sorte de que o meu bispo é, ao contrário, um defensor da causa das mulheres e ele sempre me apoiou. Meu lugar na igreja de São João de Ealing era ocupado também por uma mulher antes da minha chegada”.
A situação parece melhor aceita nas regiões do norte do país, mais carentes, “porque todo o mundo se concentra sobre as necessidades mais essenciais”, acredita.

Boa relação com os fiéis
Katie Tupling, 37 anos, é vigária de três paróquias próximas da cidade de Derby (norte da Inglaterra). “Nunca tive problemas com os fiéis”, diz ela. Eles estavam habituados a ter um homem no meu lugar, eles tiveram que se ajustar no começo. Nunca houve um debate teológico sobre a questão, isso não lhes dizia respeito. Especialmente o fato de que faço parte da segunda onda de mulheres sacerdotes e que isso, portanto, não tem nada de revolucionário”.
Um testemunho confirmado por suas duas colegas. Elas também nunca sentiram o menor sinal de agressividade, “às vezes, um pouco de machismo quando um idoso vem para agradecer e me dizer que tinha agido bem, implícito para uma mulher”, sorri Rosie Harper.
Por outro lado, seu sacerdócio pode se tornar problemático em suas vidas pessoais. Se, financeiramente, seu rendimento é o mesmo, baseado em uma grade salarial, esta escolha pode assustar as pessoas ao seu redor. “Meu pai, que é sacerdote, ficou muito chocado no início, lembra” Rosie Harper. “Depois de várias discussões, ele rapidamente percebeu o que tinha de fazer e aceitou muito bem aminha decisão”.
A mesma coisa acontece com Sally Hitchiner, que utiliza também a palavra "chocar", para caracterizar a reação de seu pai. “Muito tradicional, ele queria que eu seguisse um percurso normal para ter uma ‘vida normal’. No começo foi difícil. Depois, para me mostrar que me apoiava e que estava muito orgulhoso de mim, ele pagou o vestido da minha ordenação, que custou mais de 1.000 euros, dizendo-me: ‘Toda vez que você o usar, quero que saiba que eu estou com você...’”.

Encontrar um marido sendo uma mulher sacerdote
No entanto, o sacerdócio pode colocar mais problemas à sua vida privada. “Eu sou solteira no momento, eu acho que os homens têm dificuldade para aceitar viver com uma mulher que dirige sua paróquia”, diz a jovem. “E ainda mais, eu faço parte da segunda geração de mulheres ordenadas. Eu posso, portanto, viver como eu quero, vestir saia, cuidar da minha aparência, ao passo que a maioria das mulheres tornou-se sacerdote durante os anos 1990, mantendo o cabelo curto...”.
Rosie Harper e Katie Tupling ainda não experimentaram esta preocupação. A primeira já foi casada, cantora de ópera e mãe de três filhos quando decidiu dar o grande salto, no mesmo dia em que foi votada a mudança da lei, no Sínodo de 1994. “Meu marido era sacerdote, ele duvidava disso mais seriamente, mas ele sempre me apoiou. Eu tinha um pouco de receio por causa dos meus filhos, mas seus amigos acharam muito legal ter um pai e uma mãe sacerdotes!”
A Katie, por sua vez, conheceu seu marido enquanto fazia teologia, na Universidade. “Ele, portanto, sabia o que eu pensava e tem sido sempre um grande apoio. Ele inclusive saiu do seu emprego a fim de cuidar do nosso filho de 19 meses para que eu possa me dedicar inteiramente à minha paróquia”.











***FRANCIS DE MELLO***

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