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sábado, 7 de abril de 2012

"REALENGO; UM ANO DEPOIS RELEMBRANDO A DOR DA VIDA COM A TRISTE LEMBRANÇA DO MASSACRE"

A VIDA SEGUE COM AS TRISTES LEMBRANÇAS.







A nova escola Tasso da Silveira. Foto: AP



“Osenhor pode usar esse crachá aqui, por favor”? O pedido da simpática moça da recepção para que a reportagem seja devidamente identificada é a primeira impressão que se tem de que as coisas realmente mudaram na escola municipal Tasso da Silveira. Aliás, o massacre que deixou 12 adolescentes mortos, há um ano, mudou o esquema de segurança em todos os colégios do Rio.
A segunda constatação: o colégio em Realengo hoje é referência. ”Uma pena que aconteceu uma tragédia dessas para que tivéssemos um dos melhores colégios do Rio”, lamentava e sorria um aluno do oitavo ano. De fato, a tragédia sensibilizou o poder público: foram R$ 9 milhões investidos numa plena reforma.
Foi tudo modificado: a primeira sala onde o atirador Wellington Menezes iniciou a sua chacina particular não existe mais. Agora é caminho para um prédio anexo, totalmente novo.
A segunda sala onde mais vítimas foram feitas se transformou em locação para alunos especiais, e não conta com expediente constante. Até a entrada do colégio foi alterada: a antiga parte do fundo tornou-se a recepção, ou seja, o endereço da Tasso da Silveira hoje é outro. Isso sem falar na reforma da quadra, nas 16 câmeras de monitoramento, e nos azulejos pintados pelos alunos que decoram o pátio do recreio.
“Foi uma grande sacada isso, ajudou a renovar. Claro que o que ocorreu aqui vai ficar marcado para sempre, mas o nosso foco agora é o futuro”, explica a diretora-adjunta, Deisy Pereira. “O que dá força para a gente é justamente isso, é o ficar junto”, completa.
Juntos, aliás, professores e alunos buscaram força para prosseguir. Leila D´Angelo, professora de língua portuguesa, dava aula justamente na primeira sala invadida.
“Ele tinha um revólver em cada mão. Minha reação na hora foi uma só: preciso pedir ajuda”, relembra. “Adolescente é meio imediatista, pelo que a gente tem visto eles já estão superando. Eles achavam que se apoiavam em mim, mas na verdade eu é que me apoiava neles”, confessa.
O professor de história Jorge da Costa revela ainda outra constatação da tragédia:“comecei a me preocupar com aquele aluno muito tímido, que quase não tem amigos. Era algo que eu não percebia antes. Lembro que quando falei em sala de aula isso, um desses alunos tímidos balançou a cabeça concordando, querendo dizer: ‘é isso mesmo’. Foi uma perspectiva que eu não tinha”, explica.
Lucas de Jesus, presidente do grêmio estudantil do colégio, resume bem o sentimento da Tasso da Silveira atualmente:“lembrança a gente vai ter sempre, mas abaixar a cabeça para a tristeza e para a morte é uma coisa horrível, não pode deixar isso ficar dentro da gente e da própria escola. A vida segue em frente”.

"REALENGO SENTE A FALTA DAQUELE ABRAÇO"


Moradores relatam o trauma de ver a história do bairro manchada pelo massacre. Foto: Reinaldo Marques/Terra


Dona Ana Santos mora há 48 anos em Realengo, quarto bairro mais populoso do Rio de Janeiro, com 180 mil habitantes de acordo com o Censo 2010 do IBGE. Ela tem na ponta da língua a resposta para a pergunta da reportagem do Terra: Qual é a reação das pessoas quando a senhora diz que mora aqui? “Elas logo perguntam: mora perto da escola?”, admite.
Assim tem sido a vida dos moradores do pacato bairro da zona oeste do Rio, encravado entre o maciço da Pedra Branca e a serra da Mendanha: conviver com a publicidade negativa da tragédia. “Aqui ninguém incomoda ninguém”, explica José de Mello, morador há 54 anos. Não é difícil encontrar carroças, por exemplo, rodando livremente pelas ruas. O clima de cidade interiorana, porém, está evidentemente manchado.
“Os moradores daqui acham que foi um caso raro. Mas quem tem sentimento sabe que foi uma coisa que mexeu muito”, completa. O massacre ocorrido na escola Tasso da Silveira, quando um atirador invadiu salas de aula matando 12 alunos e deixando outros 18 feridos, somou-se ao episódio do sequestro de uma equipe do jornal O Dia, em 2008, por milicianos da favela do Batan, um sub-bairro local.
“É triste, aqui é tudo tão calmo, e vamos ficar lembrados por estes episódios. Quando as pessoas ouvirem ‘alô, alô, Realengo’, vão lembrar disso tudo, e não da poesia da música. Uma pena”, lamenta o comerciante Rodolfo Paes, há 30 anos morando no entorno da Tasso da Silveira.
Eternizado na canção de Gilberto Gil, Realengo sente falta hoje “daquele abra.









“Confesso que agora estou meio amedrontada, mas a gente tem que enfrentar. Eu não saio mais tarde da igreja, por exemplo. Quando vejo que a hora vai se estendendo, deixo as coisas para depois. Até então eu não tinha medo, antes do acontecido. Abalou bem”, resume a vendedora de uma espécie de brechó que funciona na igreja presbiteriana ao lado da escola.



"QUANDO A VONTADE DE VIVER FAZ A DIFERENÇA"


Vítimas foram homenageadas no muro da escola. Foto: Reinaldo Marques/Terra



Nem sete dias em coma induzido, ou os outros 50 internado em dois hospitais, tampouco a perda da visão do olho direito, acarretada pelo tiro de um maníaco, que destruiu seu globo ocular e ainda fez com que perdesse massa encefálica. Nada disso impediu que Luan Vítor Pereira, um dos sobreviventes do massacre de Realengo, perseverasse. 
“Às vezes eu pergunto: ‘Luan, você fica triste por enxergar só de uma vista?’ Ele responde: ‘não, mãe. Com uma só eu consigo fazer tudo’. É isso que nos fortalece”, confessa Maria de Fátima Pereira, a mãe que somente no último mês conseguiu retomar a rotina de trabalho. “É ele quem hoje segura a família”, complementa o pai, Valdecir Pereira.

“Ele teve muita vontade de viver. Ele não teve depressão, foi realmente incrível a sua força. Sua perseverança que o fez sair da cama”, diz, orgulhoso do filho que completou 14 anos no último dia 29.
Luan foi o penúltimo dos 18 adolescentes feridos na tragédia a deixar o hospital. Escapar da morte foi sua grande vitória. O próximo passo é dar prosseguimento ao processo lento de recuperação. Ele ainda não pôde retomar a rotina de futebol, por exemplo, sua grande paixão. E ainda convive com outras sequelas, além da perda da visão do olho direito.
“Foi difícil, porque devido a lesão, ele teve alguns desvios de comportamento. A atitude dele mudou. Mas posso dizer que agora ele está mais calmo. Foi um período bem difícil de aceitar”, explica Valdecir, ansioso para a próxima cirurgia de Luan. Sim, porque o hospital já ligou para a família avisando que a prótese que vai ocupar o buraco deixado pela bala em seu rosto chegou ao Instituto Nacional de Traumatologia (Into).
“Ainda existem estilhaços da bala atrás do globo ocular. Tem que mexer para dar uma levantada e ele recuperar os movimentos do lado direito da face. Ele está ansioso, não vê a hora”, conta Mária de Fátima, dando mais uma razão para se acreditar que a força de vontade de um pequeno guerreiro, de fato, fez toda a diferença.
"UMA CHORA E OUTRA CONSOLA"
Duas das vítimas: Karine e Milena . Foto: Reprodução

“As pessoas chegam e falam: ‘nossa, como passa rápido, já vai fazer um ano’. Passa rápido para quem está de fora. Para nós que sofremos essa perda, é difícil. Minha ficha ainda não caiu”, relata, ainda bastante abalada, dona Nilza da Cruz, avó de Karine Lorraine Chagas, uma das vítimas do atirador da escola Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro.
Repercutir com as mães das vítimas do massacre de Realengo é uma tarefa ingrata com respostas óbvias. “Quando eu vejo aquele barulho de criança chegando da escola, sabe, dá uma sensação de que ela vai aparecer”, completa dona Nilza. A reportagem do Terraparticipou de um dos encontros (quase que) semanais da Associação de Familiares e Amigos dos Anjos de Realengo, grupo formado para manter viva a memória das vítimas, e, sobretudo, para fazer o trabalho de amparo mútuo.
“Uma chora e a outra consola. Tem sido assim a nossa vida”, afirma Joseana Bispo dos Santos, mãe de Milena dos Santos, morta no fatídico dia 7 de abril de 2011.
“Uma criança que veio ao mundo com seis meses, que brigou pela vida, e aos 13 anos foi embora desta forma bruta. Eu não aceito até hoje. Quem morre de tiro é bandido, minha filha estava onde deveria estar, na sala de aula ”, diz Joseana, com lágrimas nos olhos.
Rotina parecida tem Maria José Silva, mãe de Larissa Silva Martins, também de 13 anos, outra vítima. “Está tudo a mesma coisa. Cada dia que passa parece que a dor aumenta mais. “Não consigo ficar dentro de casa. Quando chega 7h e 12h30 (horários em que ela saía e chegava da escola) é a coisa mais triste do mundo”, lamenta, saudosa de sua “pequenina”, como chamava a filha. “Só Deus sabe, é muito recente para nós conseguirmos suprir a ausência.”


O grupo de pais planeja, além de uma missa de um ano em memória dos adolescentes assassinados, uma carreata para chamar a atenção da mídia para que o caso não caia no esquecimento. O bullying que teria atormentado Wellington Menezes a ponto de ele cometer o genocídio também é tratado como preocupação social. As mães pedem que a população do Rio de Janeiro utilize fitas verdes nas roupas, carros, onde puder colocar. A cor representa alívio para quem viveu um trauma, teria poder calmante. “As pessoas não podem esquecer da nossa dor”, relembra Dona Nilza. Não mesmo.



"UMA CURTA HISTÓRIA DE UM ASSASSINO"

O atirador Wellington possuía fotos empunhando armas. Foto: reprodução.

Antes de entrar na escola Tasso da Silveira, em Realengo, na manhã do dia 7 de abril de 2011, e abrir fogo contra os alunos, matando 12 deles, até mesmo quem o conhecia pouco sabia sobre Wellington Menezes, 24. Um ano depois de ter entrado para a história como o responsável pela maior barbárie dentro de uma escola no Brasil, quase nada se sabe exatamente sobre o atirador que chocou o País.
Wellington deixou um rastro curto sobre sua personalidade, especialmente nos últimos anos. Extremamente fechado, sempre foi recluso e de poucos amigos. Desde criança, passando pela época em que estudava na mesma Tasso da Silveira, às portas da adolescência, onde cursou da 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental. Segundo relatos de pessoas que conviveram com ele naquela fase, o atirador de Realengo era um dos alvos prediletos das brincadeiras dos colegas, seja pelo jeito de se vestir, pela aparência física ou pela timidez exacerbada.
A personalidade fechada de Wellington não deu qualquer pista sobre a barbárie que ele acabaria cometendo. Sem amigos, passava a maior parte do tempo navegando na internet. Wellington premeditou por um longo tempo o ataque à escola. E foi no seu computador que deixou arquivos de vídeo em que tenta justificar seu ato hediondo. O mais antigo deles data de 2010, e o criminoso já mencionava a ação.
“Descobrirão quem eu sou da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes, que são humilhados, agredidos e desrespeitados em vários locais, principalmente em escolas e colégios”, afirmava Wellington.
Descoberto, Wellington continuou sozinho. Ninguém apareceu para liberar seu corpo. Foi sepultado como indigente, numa cova rasa do cemitério do Caju, sem lápide, sem visitas, sem nada. 


Assassino foi enterrado como indigente no cemitério do Caju. Foto: Giuliander Carpes/Terra



"HEROI DA TRAGÉDIA LAMENTA NÃO PODER TER EVITADO 12 MORTES".

Sargento Alves (à dir.), foi o primeiro a chegar ao local e atirou em Wellington. Foto: divulgação

Pode soar exagerado que uma tragédia tão dolorida pudesse se tornar ainda pior, mas a ação rápida de algumas pessoas evitou que um homem disposto a matar e morrer sem nenhuma causa justificável fizesse ainda mais vítimas.
Uma delas é o sargento da PM Márcio Alves, que, alertado sobre o que estava acontecendo na escola Tasso da Silveira, partiu para lá e conseguiu abater, a tiros, o assassino Wellington de Menezes, que se matou em seguida com um tiro na cabeça.
Para o sargento Márcio Alves, sua intervenção não passou de uma obrigação. “Cumpri apenas o meu dever”, ressalta. O PM do BPVR (Batalhão de Polícia Rodoviária) estava trabalhando no trânsito, a cerca de 300 metros da escola. O dia a dia de Alves não é pontuado por tiroteios ou perseguições a criminosos. Mas naquele dia, o PM teve que utilizar seu conhecimento e seu instinto para conter o homem que chocou o País. 
“Isso nunca vai se apagado, não tem como sair da memória. Outro dia fui à escola, e me veio à cabeça todo o caminho que fiz”, conta o policial, pai de duas crianças.
Ele, no entanto, lamenta até hoje não ter tido a possibilidade de evitar as 12 mortes. “Queria ter chegado a tempo e ter salvado mais vidas. Ter conseguido parar o atirador não diminuiu a tristeza das famílias que perderam seus entes queridos”, conta.
O sargento Alves foi avisado da barbárie que acontecia no colégio pelo aluno Alan Silva. Mesmo baleado, o menino, que tinha 12 anos na época, conseguiu correr e ir buscar ajuda. “Ele é um verdadeiro herói, por ter sobrevivido e tido força para sair e buscar ajuda”, observa o PM. O sargento Alves foi condecorado pelo ato, e promovido pelo governador Sérgio Cabral.








***FRANCIS DE MELLO***











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